Solomaxxing
Como um termo nascido nos cantos sombrios da internet virou sinônimo de curtir a vida sozinha (e por que tudo virou "maxxing")
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Solomaxxing
Como um termo nascido nos cantos sombrios da internet virou sinônimo de curtir a vida sozinha (e por que tudo virou “maxxing”)
Você já ouviu falar em solomaxxing? Eu li esses dias na Wired e na Psychology Today sobre essa nova tendência entre os Gen Zs: a escolha de ficar sozinho, transformando a solteirice em algo desejável e em uma oportunidade para você investir em si próprio. O termo maxxing a gente tem visto bastante também - como em looksmaxxing - e eu vou falar dele mais pra baixo.
Muitas pesquisas têm sido feitas com jovens de várias partes do mundo (pela Pew Research Center e MYIQ, por exemplo) e, entre os motivos para ficar sozinhos, as pessoas citam:
Cansaço dos apps de date
Mais gastos com restaurantes, viagens, transporte e programas em geral
Ficar solteiro traz mais tranquilidade do que estar em um relacionamento
Agora, eu acho que a vontade de ficar sozinha também tem aparecido bastante em pessoas da minha faixa etária (45 - 55). Eu tenho adorado ficar sozinha; minha vida é super corrida e, tirando trabalho, filhos e casa, sobra pouco tempo pra mim. E no raro tempo que sobra, preciso decidir se eu:
Leio meu livro
Vejo minha série
Vou ao cinema
Vou na casa de alguém
Arrumo a casa
Adianto algum trabalho
Escrevo minha newsletter
Faço minhas pesquisas
Trabalho e lazer têm sido cada vez mais uma coisa só pra mim - não sei se isso é bom ou ruim. Enfim, então, quando eu estou sozinha, eu adoro. É meu momento “egoistinha”, eu escolho a música, a altura, a série, o canal, o programa, o filme, o lugar sem me preocupar se a outra pessoa vai gostar, o que ela vai achar. Ser livre também é muito bom.
Tudo isso pra falar que eu entendo e aprecio o solomaxxing. FORA QUE, não é que tá cheio de gente interessante por aí caindo do céu igual os sapos no filme Magnólia.
Mas de onde vem o termo maxxing? Se você tem acompanhado pelas redes, sabe que não vem de um bom lugar - solomaxxing é só o exemplo mais recente de uma mania de linguagem que já caiu na internet.
O sufixo “maxxing” tem uma origem mais antiga do que a gente imagina: nasceu numa teoria de jogos dos anos 1940 e foi parar nos manuais de RPG de mesa nos anos 80, como “min-maxing”, a estratégia de quem investe tudo num único atributo do personagem pra extrair vantagem máxima.
A partir daí, o termo toma uma direção bizarra.
Na década de 2010, o termo apareceu nos fóruns de incels (involuntary celibate / celibatário involuntário, em português), comunidades de homens que culpam as mulheres pela própria solidão e defendem que a atratividade física é o que determina o valor de uma pessoa em um relacionamento. Foi ali que nasceu o “looksmaxxing”, que significa otimizar a aparência a qualquer custo, com escalas pra medir o próprio rosto.
Continua comigo porque só fica mais surreal.
Essa medição chama-se Escala PSL, uma sigla que une três fóruns de incel hoje extintos (PUAHate, Sluthate e Lookism) e onde esse sistema foi desenvolvido, no início dos anos 2010. A ideia dos caras era criar uma forma objetiva de medir atratividade facial, baseada em critérios como estrutura óssea, mandíbula, sobrancelha, simetria com a intenção de comunicar virilidade e aumentar seu valor no “mercado romântico”.
Como funciona na prática: é uma escala de 0 a 8 (não sei por que) em que os homens postam a própria foto em fóruns e pedem pra serem avaliados por estranhos.
Bom, fast forward para 2023, quando as garotas passam a usar o termo looksmaxxing em tutoriais de maquiagem e filtros de avaliação de rosto, sem saber que essas métricas vinham direto dos fóruns de incel e do rate-me do Reddit. Elas estavam reaproveitando um nome já existente, só que aplicado de um jeito mais leve e sem a bagagem ideológica.
Quem resgatou o sentido mais sombrio da palavra foi o streamer americano Clavicular - hoje o exemplo mais extremo do looksmaxxing, que faz coisas como golpear o próprio rosto pra tentar remodelar os ossos. E o pior, seus vídeos viralizam e ele tem uma comunidade em que “ensina” homens e mulheres o “Clav Protocol”. Clavicular tem 20 anos. Só neste ano, foi preso duas vezes por agressão, posse de documento falsificado e envolvimento com drogas, e banido do Youtube por sofrer uma overdose durante uma transmissão. Uma ladeira abaixo sem fim.
Mas isso mostra as voltas que uma palavra dá em termos de sentido: o significado não é fixo, ele muda dependendo de quem está usando e por quê.
Tanto que foi a partir daí que o sufixo se soltou da origem e virou um apoio pra qualquer coisa: sleepmaxxing (otimizar o sono), jazzmaxxing (colecionar discos de jazz obsessivamente), birthdaymaxxing, tiramisumaxxing… Vira e mexe aparece um novo. E assim, chegamos no solomaxxing: maximizar a própria vida sozinha.
O que isso diz sobre a gente
Repara no padrão: em menos de cinco anos, a internet decidiu que praticamente nenhuma escolha de vida (como dormir bem, gostar de música, ficar sozinha) pode simplesmente ser. Precisa vir numa embalagem pra virar conteúdo. Até descansando a gente tem que performar.
Porque, convenhamos: estar bem sozinha, gostar da própria companhia, ter amor próprio e ver a vida acontecendo por dentro sem depender de um amor romântico, isso não é descoberta de 2026. Pra muitas mulheres da minha geração, isso é maturidade conquistada com tempo, sem precisar de sufixo, de hashtag, ou de carinho do algoritmo.
É até um pouco irônico que tenha sido preciso todo esse caminho, de um fórum bizarro de internet trend de TikTok, pra que a cultura desse nome (e valor) a algo tão simples: a alegria de ser suficiente pra si mesma.
You go mamma!!
Uma nota rápida (já são 22h30 e estou com sono) pra dizer que gostei muito do novo álbum da Madonna, o Confessions II.
Como o nome entrega, ele foi pensado como sequência direta do clássico Confessions on a Dance Floor (2005), aquele que tinha Hung Up. Eu li que ela passou por um momento pessoal difícil (perdeu o irmão e a madrasta em 2024) somado ao cenário sociopolítico do mundo, e a resposta dela foi gravar um disco de pista, feliz e dançante, quase como um antídoto.
E realmente, ele está cheio de faixas dançantes, alegres para ouvir na pista, no carro, no fone ou sempre que precisar de um up ; ) Minhas preferidas: Danceteria, Love Sensation, Bizarre e a lindinha L.E.S Girl, última faixa do álbum e que parece inspirada na própria cantora quando jovem, antes da fama, quando morava no Lower East Side de Nova York. Também adorei a direção de arte dos clipes e videos que estão sendo usados pra promover o álbum. You go, mama!!
Uma nave caída na Mongólia
Parece um disco voador que caiu do céu, mas é uma galeria no meio do nada, na Mongólia Interior.
É a Prairie Ark, projetada pelo estúdio chinês Büro Ziyu Zhuang, às margens do Lago Laoli, cerca de 160 km de Pequim. O estúdio também criou a Nomads’ Beacon Tower, uma torre de observação que fica ao lado do museu, cujo único acesso fica submerso quando o nível do lago sobe no verão.
O arquiteto Ziyu Zhuang contou ao site Deezen que o espaço evoca a sensação da nave espacial encravada nas montanhas no filme Prometheus, e disse que a experiência de entrar na galeria é mais um diálogo com o terreno do que uma visita deliberada a um edifício.
Eu achei interessante, mas nem todo mundo comprou a ideia - entre os comentários que li, teve gente que disse que era extremamente distópico ou que parecia um barco encalhado. Também li uma pessoa que questionava a existência do projeto como um ato de vaidade, já que ele foi construído em uma localização bem remota e poucas pessoas de fato irão circular por lá. As fotos contam tudo. E você, o que achou?
Orkhḗstra Phántasma
Fui assistir ao novo espetáculo de Felipe Hirsch, diretor de teatro que acompanho há muitos anos - e que adoro.
O que posso dizer é que Orkhḗstra Phántasma é linda, engraçada, profunda e insuportável - tudo ao mesmo tempo. Umas 80 pessoas saíram ao longo da apresentação de quase 3 horas. Juro.
Eu não sabia que as pessoas estavam fazendo isso agora: sair no meio de uma apresentação. Especialmente um espetáculo com atores ou músicos performando ao vivo. Eu tenho até vergonha de me levantar. Aguento até o fim e pronto. Eu saí uma única vez de um filme, Irreversível, do Gaspar Noé, porque a cena do início tava quase me dando um pânico.
Orkhḗstra Phántasma tem um elenco muito bom - menção honrosa pra Georgette Fadel, as cenas dela são incríveis. E sempre gosto de ver o Thalin, que conheci no início da deliciosa Dupla 02 (fiz uma entrevistona com eles para o FFW, mas saiu do ar). O Thalin é músico, mas foi adotado pelo time do Felipe, adoro a energia dele e quando ele dança. Vale ver, mas lembre-se: a peça não é o que você imagina ou espera. Eles vão subverter tudo. Como diz o release, “esta peça é sobre a ilusão de que somos livres dentro da nossa própria cabeça. Esqueça tudo.” Em cartaz no Sesc Vila Mariana.
Café por elas
Você já conhece o Café Por Elas? É onde tenho comprado meus cafés em grãos. É um dos mais gostosos que já provei - e sou bem chata com café.
Essa turma de mulheres resgata o protagonismo feminino em todas as etapas da cadeia produtiva, do plantio ao pacote. “Nossas parcerias são construídas com mulheres e famílias que respeitam o tempo da terra, os processos de cultivo e as pessoas envolvidas em cada etapa", dizem as fundadoras Julia e Nadia Nasr.
Elas recentemente abriram um café na Vila Buarque onde dá para sentar e experimentar ou comprar e levar pra casa. Se você gosta de bons cafés, pode comprar de olhos fechados.
“A melhor aposta é investir em inteligência emocional e em resiliência mental; na capacidade de encarar mudanças, de se transformar e de se reinventar constantemente - porque isso será necessário mais do que em qualquer outro momento da história.”
Yuval Noah Harari
E pra encerrar 👋 💋
L.E.S Girl, Madonna














Como eu amo esse tantão de contexto sobre palavras que parecem surgir do nada. E também sigo apaixonada pela música que fecha o álbum da Madonna.
Essa otimização da vida é muito cansativa. Minha parceira me mostrou um livro chamado Die with Zero. Não li o livro, mas a premissa é: após conseguirem estabilidade financeira, as pessoas devem otimizar o seu dinheiro para morrer com $0, senão todo o trabalho que tiveram economizando, não valeu de nada, pois elas não usufruíram totalmente dos benefícios… A primeira coisa que me veio à cabeça foi: pronto, agora não podemos nem nos aposentar em paz, porque temos que otimizar a aposentadoria até o fim da vida. Me deu um cansaço...